Blog do felicidade

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terça-feira, 21 de março de 2017

Como enxergamos o mundo Histórias para reflexão

Um senhor, beirando os 80 anos de idade, descansava no banco da praça de uma cidadezinha do interior, quando foi abordado por um homem que havia estacionado o carro à sombra de uma árvore:
Bom dia, senhor. Como vai?
Bom dia, meu amigo. Respondeu o idoso.
O senhor mora por aqui? Perguntou o motorista.
Sim, desde que nasci. Disse o senhor com tom de satisfação.
Ao que o visitante explicou:
É o seguinte: eu e minha família estamos de mudança para cá no final deste mês e eu gostaria muito de saber como é o povo daqui. O senhor pode me ajudar?
O idoso, então, perguntou ao homem:
Antes eu quero te perguntar uma coisa: como são as pessoas da antiga cidade que o senhor vivia?
Sem constrangimento, o futuro morador falou:
Ah... De onde eu venho, as pessoas são muito boas, um povo hospitaleiro, amigo. Todos se dão muito bem. Eu amava aquele povo! Só estou saindo de lá porque a empresa que eu trabalho abriu uma filial aqui e me colocou como diretor.
Satisfeito com a resposta, o idoso comentou:
O senhor é uma pessoa de sorte! Esta cidade é exatamente como a sua. Tenho certeza que sua família vai gostar muito da nossa gente. Somos muito 'gente boa'. Para falar a verdade, você acabou de ganhar um novo amigo! Meu nome é José, muito prazer!
Aquele homem agradeceu o idoso pela hospitalidade, voltou para o seu carro e foi embora.
Horas mais tarde, outro homem também chegou à praça da cidadezinha e fez a mesma pergunta ao idoso, que continuava desfrutando daquele belo dia de sol.
Senhor, boa tarde. Estou pensando em me mudar para cá e gostaria de saber como é o povo dessa cidade.
O idoso perguntou:
E como era o povo da sua cidade, meu amigo?
Meio sem entender, aquele homem respondeu:
Vixi, era um povo muito sem educação. Um bando de gente orgulhosa, preconceituosa, arrogante e mesquinha. Só para você ter ideia, eu morei mais de 15 anos lá e não fiz um amigo sequer!
Com uma voz calma, o senhor de cabelos brancos disse ao homem:
Sinto muito, filho. Infelizmente você vai encontrar exatamente o mesmo tipo de pessoa na nossa cidade. As pessoas aqui não são amigas de ninguém, são orgulhosas e vivem com uma cara fechada. Te aconselho a procurar outra cidade para morar, pois o povo daqui vai te decepcionar muito!
O pipoqueiro da praça, que assistiu toda a conversa daquele senhor com os dois homens, não se conteve e perguntou:
Seu José, o senhor me desculpe, mas eu não pude deixar de ouvir as conversas que você teve com aqueles dois homens. Como o senhor pôde responder a mesma pergunta com duas respostas tão diferentes?
O Sr. José riu da curiosidade do pipoqueiro, e respondeu:
Ah, meu bom amigo... Nós sempre vemos e julgamos o mundo à partir da nossa visão, a partir de quem nós somos. Uma pessoa preconceituosa, por exemplo, vai enxergar todas as pessoas preconceituosas da cidade; uma pessoa briguenta só verá as pessoas complicadas do lugar.
_ Como assim, seu José? Não entendi o que o senhor quis dizer. Falou o pipoqueiro.
O idoso, então, explicou:
Aquele homem que veio aqui de manhã vai enxergar as pessoas boas e amigas de nossa cidade; já o segundo, que acabou de ir embora, só enxergará os orgulhosos, preconceituosos e arrogantes. Entenda uma coisa, rapaz: o mundo depende da visão que temos. O exterior sempre refletirá o que temos guardado no nosso interior.
Jesus disse: "Os olhos são a candeia do corpo. Se os seus olhos forem bons, todo o seu corpo será cheio de luz. Mas se os seus olhos forem maus, todo o seu corpo será cheio de trevas. Portanto, se a luz que está dentro de você são trevas, que tremendas trevas são!" (Mateus 6:22,23).

domingo, 19 de março de 2017

Devoção a São José

A vós São José, recorremos na nossa tribulação, e depois de ter implorado o auxílio da vossa Santíssima Esposa, cheios de confiança, solicitamos o vosso patrocínio.

Por esse laço sagrado de caridade que vos uniu à Virgem Imaculada Mãe de Deus, e pelo amor paternal que tivestes para com o Menino Jesus, ardentemente suplicamos que lanceis um olhar benigno à herança que Jesus Cristo conquistou com o seu Sangue, e nos assistais, nas nossas necessidades, com o vosso auxílio e poder.

Protegei, oh!, guarda providente da Divina Família, a raça escolhida de Jesus Cristo;

Afastai para longe de nós, oh! Pai amantíssimo, a peste do erro e do vício; assisti-nos do alto do céu, oh! nosso fortíssimo sustentáculo, na luta contra o poder das trevas;

E, assim como outrora salvastes da morte a vida ameaçada, do Menino Jesus assim também defendei agora a Santa Igreja de Deus contra as ciladas dos seus inimigos e contra toda a adversidade.

Amparai a cada um de nós, com vosso constante patrocínio, a fim de que a vosso exemplo e sustentados com o vosso auxílio, possamos viver virtuosamente, piedosamente morrer, e obter no Céu a eterna bem-aventurança. Amém.

Jaculatórias (invocações curtas) a São José

São José, pai virginal de Jesus, rogai por nós.

São José esposo virginal de Maria, rogai por nós.

São José, homem justo segundo o coração de Deus, rogai por nós.

São José, custodio fiel da Mãe e do filho de Deus, rogai por nós.

São José, confidente intimo dos Sagrados Corações de Jesus e de Maria, Rogai por nós.

São José, fiel imitador das virtudes destes Sagrados Corações,rogai por nós.

São José, modelo de vida oculta e de intima união com os Sagrados Corações de Jesus e de Maria, rogai por nós.

São José, modelo de generosidade para com os Sagrados Corações de Jesus e de Maria,rogai por nós.

São José, consolado em vossas provas por estes Sagrados Corações, rogai por nós.

São José, que vivestes em Nazaré na paz dos Sagrados Corações de Jesus e de Maria, Rogai por nós.

São José, revestido de autoridade paternal sobre o Sagrado Coração de Jesus Cristo, rogai por nós.

São José, ardente em amor pelos Sagrados Corações de Jesus e de Maria, rogai por nós.

São José que aprendestes a doçura, a humildade e a misericórdia na escola destes Sagrados Corações, rogai por nós.

São José, instruído na vida interior na escola destes Sagrados Corações, rogai por nós.

São José, que participais no céu das delícias destes Sagrados Corações, rogai por nós.

São José, que ocupais no céu um lugar perto de Jesus e de Maria, rogai por nós.

São José, poderoso protetor da Igreja, rogai por nós.

São José, compassivo advogado da Igreja, rogai por nós.

Adiantai com vossas suplicas o triunfo da Igreja, Oh! São José, poderoso com o Coração de Jesus!

Consolai e protegei a nosso Soberano Pontífice, Oh! São José, poderoso com o Coração de Jesus!

Cuidai e defendei a nossa amada pátria, Oh! São José, poderoso com o Coração de Jesus!

Pedi para nós o amor dos Sagrados Corações, Oh! São José, poderoso com o Coração de Jesus!

Rogai por todas as Famílias, Oh! São José, poderoso com o Coração de Jesus!

Rogai por todas a Congregações Religiosas, Oh! São José, poderoso com o Coração de Jesus!

Rogai pelos Sacerdotes e os Missionários, Oh! São José, poderoso com o Coração de Jesus!

Rogai por todos os Apóstolos dos Dois Corações, Oh! São José, poderoso com o Coração de Jesus!

Rogai por todos os pecadores e os que estão no erro, Oh! São José, poderoso com o Coração de Jesus!

Ave, São José
(Belíssima oração lamentavelmente esquecida)

Homem justo, esposo Virginal de Maria, e pai davídico do Messias; bendito és tu entre os homens, e bendito é o filho de Deus que a ti foi confiado, Jesus.

São José, Padroeiro da Igreja universal, guarda as nossas famílias na paz e na Graça divina, e socorre-nos na hora da nossa morte.

Amém.

sábado, 18 de março de 2017

A Quaresma espiritual beneditina

Muito freqüentemente, no meio monástico-beneditino, ouve-se a sentença inicial do capítulo 49 da Regra de São Bento : “Se bem que a vida do monge deva ser, em todo tempo, uma observância de Quaresma”. Em alguns casos, algum monge privado de algo por ele desejado, diz à guisa de brincadeira: “Pois é… São Bento diz que a vida do monge é uma eterna Quaresma”, querendo expressar que a vida do monge deva ser de sofrimento e privações “desnecessárias”. Esse modo livre de citar a Regra que nos faz rir tantas vezes, na verdade, esconde um grave erro de compreensão do espírito de São Bento e vai próprio no sentido oposto daquele ao qual a RB deseja nos conduzir.
Por isso, digamos logo qual é o escopo do capitulo 49 da RB: conduzir-nos à Ressurreição do Senhor. “Viver, em todo tempo, uma observância da Quaresma” quer dizer viver vigilante, esperançoso e alegre na expectativa da Páscoa. São Bento não pretende que a vida do monge se transforme em um regime austero e de mortificações extraordinárias sem fim. Ele mesmo declara que na “escola do serviço do senhor (…) esperamos nada estabelecer de áspero ou de pesado” (RB Prol 45-46). A Páscoa é o centro de todo o Código Beneditino. A Páscoa regula e ordena a vida interior e exterior da Comunidade.
Os versículos 1-3 de RB 49 dizem respeito à vivência habitual do monge. A Quaresma é o tempo privilegiado para viver com maior intensidade e solicitude aquilo que já faz parte da nossa fidelidade diária. Além disso, a Quaresma não é de nenhum modo a finalidade da vida monástica.
Normalmente, a opinião comum não vê na Quaresma nada além do que simples prescrições sobre o comer e o beber; alguns mais piedosos pensam ainda nas obras de misericórdia e na oração. Obviamente, a concepção beneditina de Quaresma é muito mais ampla do que prescrições relativas ao nosso estômago.
Dom Paul Delatte, Abade de Solesmes, escreve: “Il (Saint Benoît) parle du carême spirituel, conciliable avec tous les horaires, avec tous les états de santé, supérieur de beaucoup au carême matériel, lequel n’est qu’un procédé qui nous aide à realiser l’autre”.
Tal Quaresma espiritual segundo RB 49, comporta dois elementos: o positivo que exorta os monges a guardarem a vida deles “com toda a pureza” (v. 2); e um negativo que consiste em apagar “todas as negligências” (v. 3). Trata-se, antes de tudo, de eliminar tudo o que nos afasta de Deus, quer dizer, o pecado e tudo o que seja imperfeito ou contrário à vontade do Senhor. Ele mesmo conhece a fragilidade humana, o pecado de cada um, e é d’Ele que vem a força para cada bom propósito da alma humana: “O Deus, que conheceis a fragilidade da natureza humana, ferida pelo pecado, concedeis ao vosso povo empreender com a força da vossa palavra o caminho quaresmal, para vencer as seduções do Malígno e chegar à Páscoa na alegria do Espírito”.
Não se pode negar o espírito penitencial da Quaresma e os meios indicados pela Santa Igreja para abandonar o pecado e buscar a pureza de coração: a oração, o jejum e a caridade, sobretudo através da ajuda aos pobres. São Bento continua o capítulo 49 dando alguns exemplos de como o monge poderá alcançar a pureza de coração: “E isso será feito dignamente, se nos preservarmos de todos os vícios e nos entregamos à oração com lágrimas, à leitura, à compunção do coração e à abstinência” (v. 4). Mas aderir a Deus com toda a nossa alma e vontade, buscar a Deus sem cessar através dos meios possíveis, é a vocação própria do monge. Mas São Bento conhece o homem e distingue o ideal da prática. Paucorum est ista virtus – esta força é de poucos (v. 2), escreve. Nem sempre cumprimos bem ou cumprimos integralmente nossos propósitos e nosso ideal. A Quaresma apresenta-se, então, como uma excelente ocasião para reparar as nossas negligências de outros tempos (cf. v. 3). Omni puritate vitam suam custodire – guardar com toda a pureza a própria vida (v. 2): significa a pureza no sentido profundo que exige um coração livre das coisas do mundo e sempre vigilante na sua relação com Deus (cf. CASSIANO, Ist. 12, 15, 1-2; Conf. 21, 36, 1; 23, 19, 2-3). Em resumo, com a fidelidade de hoje, apagamos as faltas cometidas antigamente.
Seguindo a tradição eclesial, São Bento sugere os meios de nossa santificação durante esse Tempo (v. 4). Antes de tudo, fala da “oração com lágrimas” o que nos lembra o capítulo 20 da RB. A característica de tal oração é a pureza de coração acompanhada da compunção das lágrimas (RB 20, 3). Além disso, nossa oração deve ser breve e pura (RB 20, 4), como convém a um verdadeiro cristão, e não como o fariseu do Evangelho que faz um auto elogio de sua pressuposta pureza e justiça. A pureza de coração, inspirada pelo amor a Deus e pela vivência dos seus mandamentos, vem acompanhada de lágrimas, não propriamente lágrimas exteriores (embora possam ocorrer), mas de uma verdadeira confissão a Deus. As lágrimas exprimem a intimidade, a ternura, a alegria de um coração puro e confiante. Também no capítulo 52, São Bento retoma o tema da oração “com lágrimas e pureza de coração” (RB 52, 4). “Ainsi donc, en Carême, l’oraison privée sera plus fréquente et plus fervente; l’oraison officielle, le service divin sera mieux préparé et célébré avec plus de soin. Nous nous appliquerons spécialement aussi à l’étude des choses divines, lectioni, et c’est pourquoi le chapitre précédent nous parlait des livres de carême”.
É interessante notar a ligação entre oração e leitura, como já vem expresso nos instrumentos do capítulo 4, 55-57:a palavra “escutada” na leitura desperta a compunção que gera a conversão do coração.
A vocação monástica por si só tem suas exigências diárias e perpétuas. O que São Bento espera de seus monges é que acrescentem alguma coisa aos exercícios espirituais que devem ser constantes na Comunidade: “Acrescentemos, portanto, nesses dias, alguma coisa ao encargo habitual da nossa servidão” (v. 5). E apresenta uma segunda lista de sugestões que ilustram o que quer expressar: “orações especiais, abstinência de comida e bebida” (v. 5). É de notar que São Bento abandona as práticas ascéticas extraordinárias, grandes jejuns, grandes orações e mortificações. Apenas acrescenta um pouco mais de disciplina no habitual da vida monástica. E segue uma terceira lista de exemplos: “… subtraia ao seu corpo algo da comida, da bebida, do sono, da conversa, da escurrilidade…” (v. 7). A discrição de São Bento está presente até mesmo no Tempo de Quaresma. Eis o verdadeiro sentido de qualquer penitência durante a Quaresma ou fora dela: buscar conformar nossa vida à vida de Cristo.
A mortificação é boa como meio e como procedimento, não como fim. Os exercícios espirituais nos ajudam a atingir o nosso objetivo. Porém, as mortificações não são “essencialmente” um bem, e devem sempre ser praticadas com muita discrição e sabedoria em vista de um bem maior. De fato, tais práticas devem nos conduzir à aquisição ou ao progresso no bem essencial, como, por exemplo, a misericórdia, a paciência, a justiça, a caridade e tantas outras virtudes . Convém dizer que, tantas vezes, corremos o risco de esquecer a tradição que os nossos Pais nos transmitiram, e até mesmo de esquecer o modesto e equilibrado exercício que nos deixou São Bento.
Sem dúvida, o núcleo de RB 49 é o versículo 6:
“Assim, ofereça cada um a Deus, de espontânea vontade, com a alegria do Espírito Santo, alguma coisa além da medida estabelecida para si”.
São Bento, seguindo a tradição dos Pais, não admite no mosteiro a “vontade própria”. Em todo momento, procura extirpar esse mal (cf. Prol 3; 1, 11; 3, 8; 4, 60.71; 5, 13; 7, 12.19.21.31; 33, 4). RB 49, 6 é o único lugar de toda a Regra onde São Bento admite a vontade própria porque confia na generosidade de cada um. Nós que recebemos tanto dos benefícios do Senhor, somos capazes de oferecer alguma coisa também a Deus. E não poderia ser diferente. Uma oferta por definição é algo de espontâneo. Uma vez obrigada, deixa de ser oferta.
Cada um escolherá, segundo julga sua própria consciência e sua vontade. E tal escolha será feita na “alegria do Espírito Santo” (v. 6). Assim, fortalecido pela oração pura e sincera, pelas santas leituras (lectio), ajudado pela disciplina corporal, vigilante e feliz, o monge “espera a Santa Páscoa, na alegria do desejo espiritual” (cf. v. 7). Por duas vezes, a palavra “gaudio” aparece em um capítulo tão curto. Que a vida do monge deveria ser, em todo tempo, uma observância da Quaresma é verdade pois deveria sempre alegrar-se com a vitória segura e já conseguida por Cristo, porque deveria ter sempre a alegria de Jesus ressuscitado, andar sempre na luz de Cristo.
A própria Escritura nos desperta do nosso sono (desânimo, depressão, desencorajamento, frustrações que tornam o nosso coração endurecido) para ouvirmos a Boa Nova (cf. Prol 8-13). Não são as trevas que nos envolvem nos dias de Quaresma, mas a doce voz do Senhor que se apresenta a nós e nos convida para a verdadeira vida (cf. Prol 14-20). Ele, antes que o invoquemos, já nos responde: “Eis-me aqui” (Prol 18). O nosso caminho quaresmal não é um caminho solitário, como se fôssemos abandonados por Deus. Não seríamos capazes de realizar tal caminho se não fôssemos acompanhados pelo Senhor “que pela sua piedade nos mostra o caminho da vida” (cf. Prol 20). É claro que caminhos também para a Cruz, mas já sabemos de antemão que doravante não é mais sinal de sofrimento, mas de amor e de vitória. Quanto às dificuldades da vida, cada um conhece bem as próprias cruzes de cada dia. Mas o caminho quaresmal não diz respeito a isso.
Durante todo o ano temos tantos problemas físicos, espirituais, financeiros, etc. A diferença está entre alguém que passa por uma dificuldade “sozinha”, quer dizer, que não confia em Deus e muitas vezes, não confia em ninguém além de si mesma. Não há meio de ajudar-se e não permite a ajuda dos outros. Outra pessoa, ao contrário, confia em Deus e deixa-se ajudar pelos anjos que Ele envia, seja através de uma ajuda espiritual, seja através de outras pessoas que fazem as vezes dos anjos. Como escreve Dom Delatte: “Quand il y a souffrance physique ou dépression morale, l’ennemi n’est jamais loin; le Seigneur non plus, par bonheur, ni ses anges” . Assim cantamos no “gradual” do I Domingo da Quaresma: “Angelis suis mandavit de te, ut custodiant te in omnibus viis tuis” (Salmo 90, 11). Desde o início, a Igreja nos confia à proteção e aos cuidados dos santos anjos.
A esse ponto alguém poderia por a questão: “Mas São Bento não limita a generosidade ou a própria vontade de seus monges submetendo a escolha de cada um à vontade do Abade?”
Ora, o bem da obediência intervém nesse caso para garantir a discrição nos possíveis abusos. São Bento quer que tudo o que seja oferecido seja feito com a permissão, com a oração e a vontade do Abade (cf. RB 49, 8-10). O Pai espiritual do mosteiro deve dirigir a oferta de cada um de maneira que seja fecunda. No mosteiro, outro grave risco que São Bento procura extirpar é o da presunção. Alguém poderia impor-se pesadas mortificações e pesadas renúncias não inspirado pela pureza de coração, mas pela arrogância, pelo desejo de parecer melhor do que os outros, ou mais santo. De outro lado, alguém poderia impor-se o mínimo, demonstrando preguiça e negligência com as coisas divinas, vazio de toda “alegria espiritual” e desprovido de toda “alegria do Espírito”. Assim, o Abade tem o dever de regular as sugestões de seus monges para que sejam verdadeiramente fecundas. O Abade, por sua vez, deve lembrar-se sempre de que ele também está sujeito à Regra , e não só isso, mas lembrar-se de que faz as vezes de Cristo na direção da Comunidade.
“E na alegria do desejo espiritual, espere a Santa Páscoa”.
Trata-se da alegria de um desejo espiritual e não somente das observâncias exteriores. São Bento havia já acenado no capítulo 4, 46 o fim do nosso bom desejo: “Desejar a vida eterna com toda a cobiça espiritual”. Esse desejo aqui é dirigido à Páscoa que é o Ressuscitado. Em resumo, RB 49 quer nos preparar para o encontro feliz e festivo com Deus. O Santo Padre recordou que “enquanto espera o encontro definitivo com o seu Esposo na Páscoa eterna, a Comunidade eclesial, assídua na oração e na caridade operosa, intensifica o seu caminho de purificação no espírito, para conseguir com maior abundância do Mistério da redenção a vida nova em Cristo Senhor”.
Tal vida em Cristo já nos é dada através do nosso Batismo: mortos e ressuscitados com Cristo, seguimos ao Senhor nessa vida na certeza de participarmos também da vida Eterna que só Ele é capaz de nos dar. Diz o Santo Padre que “um nexo particular liga o Batismo à Quaresma como um momento favorável para experimentar a Graça que salva. (…) Desde sempre, de fato, a Igreja associa a Vigília Pascal à celebração do Batismo: nesse sacramento se realiza aquele grande mistério pelo qual o homem morre ao pecado, se faz participante da vida nova de Cristo Ressuscitado e recebe o mesmo Espírito de Deus que ressuscitou Jesus dos mortos (cf. Rm 8, 11)” . Rezemos com o Santo Padre suplicando ao Senhor que “o nosso caminho quaresmal possa inspirar-nos a firme vontade de conformar a nossa vida a Cristo, de modo que celebrando o mistério da Páscoa seremos sepultados com Cristo e ressurgiremos para a plenitude da vida”.
Que o Senhor nos ajude na nossa generosidade e que todo o nosso empenho seja sugerido pelo Espírito Santo e executado com alegria, docilidade e mansidão.Adriano BELLINI OSB, monge da Abadia de Nossa Senhora da Assunção, São Paulo – Brasil.

sexta-feira, 17 de março de 2017

Tudo começa de novo Oração da Manhã

O dia começa para nós com o olhar voltado para o Senhor, com a oração da manhã.
Senhor, mais um dia de minha vida está se abrindo.
É como se as cortinas se abrissem novamente
para a aventura de tantas horas de minha existência.
Tudo passa tão rápido.
Sei que tu me conheces e me perscrutas
e serás luminosidade na trajetória deste dia.
Obrigado pelo descanso da noite e pela força de tudo recomeçar
como se nada tivesse sido feito.
Nada do que farei será feito sem teu olhar.
Espero poder hoje dar algumas “fugidas” e retirar-me para a cela
de meu interior e dizer-te umas poucas palavras de entrega e de amor.
Que teu olhar acompanhe o meu trabalho,
ilumine minhas preocupações
provoque em mim gestos de entrega confiante
em tuas mãos.
Olha para os pequenos da terra que lutam, que correm e não
têm nem mesmo o que comer.
Olha esses doentes que se contorcem de dores
em seus leitos de sofrimento
Olha para aqueles que perderam a esperança
no dia de amanhã.
Que todos aqueles que passarem por mim possam
sentir chegar até seu coração uma nesga de esperança.
Que hoje à noite eu possa dizer,
apesar de minha fragilidade e de meu pecado,
que fui servo do Reino que teu Filho Jesus
veio implantar nesta terra de divisão e de ódio,
de mentira e de egoísmo.
Nesta hora te consagro meus lábios, meus olhos,
meus ouvidos e toda a minha vida.
Louvado, enaltecido, glorificado sejas Tu,
engrandecido seja teu santo nome,
Deus de todos os tempos
e Senhor adorável de minha vida.

Louvores pelo dom da água
O poeta e discípulo fala da água, de muitas águas. Canta louvores à criatura água.
Bendito sejas, meu Senhor, pelas águas do riacho,
Discreta, cristalina e humilde fenda.
Teu Espírito canta em mim, silencioso murmura:
“Sou a Ternura de cada dia novo que chega”.
Bendito sejas, meu Senhor, pelas águas do Jordão,
Paixão de Cristo, caminho de Aliança.
Teu Espírito canta em mim um canto de libertação:
“Sou a nuvem do povo peregrino!’
Bendito sejas, meu Senhor, pelas águas de Caná,
Núpcias da terra, vinho novo da festa.
Teu Espírito canta em mim, promessa dos profetas:
“Sou a explosão dos aleluias!”
Bendito sejas, meu Senhor, pela água desta cruz,
Brotada junto como sangue do Cristo crucificado.
Teu Espírito clama em mim, ó Deus humilhado:
“Sou a Ferida que cura o homem que crê!”
Bendito sejas, meu Senhor, pelas águas de nossos poços,
O de Jacó e aqueles de nossos desertos.
Teu Espírito canta em mim, sopro do universo:
“Sou, para vós, a Agua viva e a sede de vossas noites!”
Bendito sejas, meu Senhor, pelas águas do batismo,
Ressurreição de Cristo onde floresce a esperança.
Teu Espírito canta em mim, novo renascimento:
“Sou a Fonte e a Vida da terra que amo!”


Oração a Jesus suspenso na cruz
Os discípulos de Jesus gostam de permanecer em meditação diante da cruz daquele que amam.
Suplico-te, Senhor, tu que pendes da cruz!
És minha esperança, meu refúgio, minha misericórdia.
Tem piedade de mim e ensina-me a te amar;
porque é meu desejo te amar
embora não saiba como fazê-lo.
Suplico-te, tu que ouves os que te amam,
confiante nesse amor que sobre a cruz demonstraste pelo homem,
faze com que eu não experimente enfado nem vergonha
de me postar diante de tua cruz;
que minha alma encontre suas delícias
em permanecer sob os teus olhos, com fidelidade e que teus olhos
tenham gosto em me olhar, com misericórdia.
Concede-me a graça de chorar minha miséria,
dá-me a alegria de ver minha tristeza transformada em alegria.
Tu que pediste por aqueles que te crucificavam
não te interessas por aqueles que te adoram?
Pregado na cruz não esqueceste a piedade.
Será que no céu esquecerás a misericórdia?
Piedade, Senhor, piedade de mim,
perdoa-me tu mesmo ou pede ao Pai que ele me perdoe;.
Por isso permaneço diante de ti.
Creio e confesso que, no lenho da cruz
atrais aqueles que te amam do fundo do coração.
Atrai-me Senhor que amo
para que eu sinta o poder de tua cruz em mim…
Senhor, peço-te como pedia o ladrão:
“Lembra- te de mim em teu reino!”
Recorda-te, Senhor, tu já ouviste uma vez esse pedido.
Aceita esse grito que brota de mim
como aceitaste aquele que te dirigiu o ladrão.
De teu reino ouve-me
como o atendeste no alto da cruz.
Mestre, diz a teu servo:
“Hoje estarás comigo no paraíso”

FELICIDADE É QUESTÃO DE ESCOLHA!

Você já parou para refletir?
Talvez não, pois a vida anda corrida não é mesmo?
Usamos sempre a mesma desculpa para fugir de nós mesmos
Afinal não é fácil olhar para dentro de si mesmo e refletir
Refletir sobre o que somos
O que queremos da vida
Como cumprimos nossa missão neste mundo
E afinal qual a nossa missão?
Não é fácil encontrar as respostas para estas perguntas
São perguntas muito difíceis, que só os corajosos fazem
As respostas só virão com muita reflexão
E a reflexão exige pausa,tranquilidade e coragem
Faça o exercício, todos os dias tire 10 minutos para fazer uma reflexão
Como trato a mim mesmo?
Como lido com o meu filho?
Com meus amigos?
Sempre dou o melhor de mim mesmo?
Estou conseguindo fazer aqueles que me rodeiam felizes?
E eu estou feliz?
Quem quer encontrar respostas, faz perguntas
Reflita, pense, pare
Você pode ser uma pessoa muito melhor e muito mais feliz
Você pode fazer a diferença para o mundo, para a sua família e amigos
A reflexão leva a melhores perguntas e respostas
E claro a escolhas melhores
E a felicidade,  é uma questão de escolha.

quinta-feira, 16 de março de 2017

A ORAÇÃO NA VIDA CRISTÃ

A oração é a vida do coração novo. Deve animar-nos a todo o momento. Mas acontece que nos esquecemos d'Aquele que é a nossa vida e o nosso tudo. É por isso que os Padres espirituais, na sequência do Deuteronomio e dos profetas, insistem na oração como «lembrança de Deus», frequente despertador da «memória do coração». «Devemos lembrar-nos de Deus com mais frequência do que respiramos» . Mas não se pode orar «em todo o tempo», se não se orar em certos momentos, voluntariamente: são os tempos fortes da oração cristã, em intensidade e duração.

A Tradição da Igreja propõe aos fiéis ritmos de oração destinados a alimentar a oração contínua. Alguns são quotidianos: a oração da manhã e da noite, antes e depois das refeições, a Liturgia das Horas. O Domingo, centrado na Eucaristia, é santificado principalmente pela oração. O ciclo do ano litúrgico e as suas grandes festas constituem os ritmos fundamentais da vida de oração dos cristãos.

O Senhor conduz cada pessoa pelos caminhos e da maneira que Lhe apraz. Por seu turno, cada fiel responde-Lhe conforme a determinação do seu coração e as expressões pessoais da sua oração. No entanto, a tradição cristã conservou três expressões principais da vida de oração: a oração vocal, a meditação e a contemplação. Têm um traço fundamental comumo recolhimento do coração. Esta atenção em guardar a Palavra e permanecer na presença de Deus faz destas três expressões tempos fortes da vida de oração.

AS EXPRESSÕES DA ORAÇÃO
I. A oração vocal
2700. Pela sua Palavra, Deus fala ao homem. É nas palavras, mentais ou vocais, que a nossa oração toma corpo. Mas o mais importante é a presença do coração Àquele a Quem falamos na oração. «Que a nossa oração seja atendida não depende da quantidade de palavras, mas do fervor das nossas almas» (2).
2701. A oração vocal é um elemento indispensável da vida cristã. Aos discípulos, atraídos pela oração silenciosa do seu mestre, este ensina-lhes uma oração vocal: o «Pai-nosso». Jesus não rezou apenas as orações litúrgicas da sinagoga: os evangelhos mostram-no-Lo a elevar a voz para exprimir a sua oração pessoal, desde a bênção exultante do Pai (3) até à desolação do Getsémani (4).
2702. A necessidade de associar os sentidos à oração interior corresponde a uma exigência da natureza humana. Nós somos corpo e espírito e experimentamos a necessidade de traduzir exteriormente os nossos sentimentos. Devemos rezar com todo o nosso ser para dar à nossa súplica a maior força possível.
2703. Esta necessidade corresponde também a uma exigência divina. Deus procura quem O adore em espírito e verdade e, por conseguinte, uma oração que suba viva das profundezas da alma. Mas também quer a expressão exterior que associe o corpo à oração interior, porque ela Lhe presta a homenagem perfeita de tudo a quanto Ele tem direito.
2704. Porque exterior e tão plenamente humana, a oração vocal é, por excelência, a oração das multidões. Mas até a oração mais interior não pode prescindir da oração vocal. A oração torna-se interior na medida em que tomamos consciência d'Aquele «a Quem falamos» (5). Então, a oração vocal torna-se uma primeira forma da contemplação.
II. A meditação
2705. A meditação é sobretudo uma busca. O espírito procura compreender o porquê e o como da vida cristã, para aderir e corresponder ao que o Senhor lhe pede. Exige uma atenção difícil de disciplinar. Habitualmente, recorre-se à ajuda dum livro e os cristãos não têm falta deles: a Sagrada Escritura, em especial o Evangelho, os santos ícones (as imagens), os textos litúrgicos do dia ou do tempo, os escritos dos Padres espirituais, as obras de espiritualidade, o grande livro da criação e o da história, a página do «hoje» de Deus.
2706. Meditar no que se lê leva a assimilá-lo, confrontando-o consigo mesmo. Abre-se aqui um outro livro: o da vida. Passa-se dos pensamentos à realidade. Segundo a medida da humildade e da fé, descobrem-se nela os movimentos que agitam o coração e é possível discerni-los. Trata-se de praticar a verdade para chegar à luz: «Senhor, que quereis que eu faça?».
2707. Os métodos de meditação são tão diversos como os mestres espirituais. Um cristão deve querer meditar com regularidade; doutro modo, torna-se semelhante aos três primeiros terrenos da parábola do semeador (6). Mas um método não passa de um guia; o importante é avançar, com o Espírito Santo, no caminho único da oração: Cristo Jesus.
2708. A meditação põe em ação o pensamento, a imaginação, a emoção e o desejo. Esta mobilização é necessária para aprofundar as convicções da fé, suscitar a conversão do coração e fortalecer a vontade de seguir a Cristo. A oração cristã dedica-se, de preferência, a meditar nos «mistérios de Cristo», como na « lectio divina» ou no rosário. Esta forma de reflexão orante é de grande valor, mas a oração cristã deve ir mais longe: até ao conhecimento amoroso do Senhor Jesus, até à união com Ele.
III. A contemplação
2709. O que é a contemplação? Responde Santa Teresa: «Outra coisa não é, a meu parecer, oração mental, senão tratar de amizade – estando muitas vezes tratando a sós – com Quem sabemos que nos ama» (7).
A contemplação procura «Aquele que o meu coração ama» (Ct 1, 7) (8), que é Jesus, e n'Ele o Pai. Ele é procurado, porque desejá-Lo é sempre o princípio do amor, e é procurado na fé pura, esta fé que nos faz nascer d'Ele e viver n'Ele. Nesta modalidade de oração pode, ainda, meditar-se; todavia, o olhar vai todo para o Senhor.
2710. A escolha do tempo e duração da contemplação depende duma vontade determinada, reveladora dos segredos do coração. Não se faz contemplação quando se tem tempo; ao invés, arranja-se tempo para estar com o Senhor, com a firme determinação de não Lho retirar durante o caminho, sejam quais forem as provações e a aridez do encontro. Não se pode meditar sempre; mas pode-se entrar sempre em contemplação, independentemente das condições de saúde, trabalho ou afetividade. O coração é o lugar da busca e do encontro, na pobreza e na fé.
2711. A entrada na contemplação é análoga à da liturgia eucarística: «reunir» o coração, recolher todo o nosso ser sob a moção do Espírito Santo, habitar na casa do Senhor que nós somos, despertar a fé para entrar na presença d'Aquele que nos espera, fazer cair as nossas máscaras e voltar o nosso coração para o Senhor que nos ama, de modo a entregar mo-nos a Ele como uma oferenda a purificar e transformar.
2712. A contemplação é a oração do filho de Deus, do pecador perdoado que consente em acolher o amor com que é amado e ao qual quer corresponder amando ainda mais (9). Mas ele sabe que o seu amor de correspondência é o que o Espírito Santo derrama no seu coração, porque tudo é graça da parte de Deus. A contemplação é a entrega humilde e pobre à vontade amorosa do Pai, em união cada vez mais profunda com o seu Filho muito amado.
2713. Assim, a contemplação é a expressão mais simples do mistério da oração. É um dom, uma graça; só pode ser acolhida na humildade e na pobreza. É uma relação de aliança estabelecida por Deus no fundo do nosso ser (10). A contemplação é comunhão: nela, a Santíssima Trindade conforma o homem, imagem de Deus, «à sua semelhança».
2714. A contemplação é, também, por excelência, o tempo forte da oração. Nela, o Pai enche-nos de força, pelo Espírito Santo, para que se fortaleça em nós o homem interior, Cristo habite nos nossos corações pela fé e nós sejamos radicados e alicerçados no amor (11).
2715. A contemplação é o olhar da fé, fixado em Jesus. «Eu olho para Ele e Ele olha para mim» – dizia, no tempo do seu santo Cura, um camponês d'Ars em oração diante do sacrário (12). Esta atenção a Ele é renúncia ao «eu». O seu olhar purifica o coração. A luz do olhar de Jesus ilumina os olhos do nosso coração; ensina-nos a ver tudo à luz da sua verdade e da sua compaixão para com todos os homens. A contemplação dirige também o seu olhar para os mistérios da vida de Cristo. E assim aprende «o conhecimento íntimo do Senhor» para mais O amar e seguir (13).
2716. A contemplação é escuta da Palavra de Deus. Longe de ser passiva, esta escuta é obediência da fé, acolhimento incondicional do servo e adesão amorosa do filho. Participa do «sim» do Filho que se fez Servo e do «faça-se» da sua humilde serva.
2717. A contemplação é silêncio, este «símbolo do mundo que há-de vir» (14) ou «linguagem calada do amor» (15). Na contemplação, as palavras não são discursos, mas acendalhas que alimentam o fogo do amor. É neste silêncio, insuportável para o homem «exterior», que o Pai nos diz o seu Verbo encarnado, sofredor, morto e ressuscitado e que o Espírito filial nos faz participar da oração de Jesus.
2718. A contemplação é união à oração de Cristo na medida em que nos faz participar no seu mistério. O mistério de Cristo é celebrado pela Igreja na Eucaristia e o Espírito Santo faz-nos viver dele na contemplação, para que seja manifestado pela caridade em ato.
2719. A contemplação é uma comunhão de amor, portadora de vida para a multidão, na medida em que é consentimento em permanecer na noite da fé. A noite pascal da ressurreição passa pela da agonia e do sepulcro. São estes três tempos fortes da «Hora» de Jesus, que o seu Espírito (e não a «carne», que é «fraca») nos faz viver na oração contemplativa. É preciso consentir em velar uma hora com Ele (16).
Resumindo:
2720. A Igreja convida os fiéis para uma oração regular: orações quotidianas, Liturgia das Horas, Eucaristia dominical, festas do ano litúrgico.
2721. A tradição cristã compreende três expressões principais da vida de oração: a oração vocal, a meditação e a contemplação. Têm em comum o recolhimento do coração.
2722. A oração vocal, fundada na união do corpo e do espírito na natureza humana, associa o corpo à oração interior do coração, a exemplo de Cristo que orava ao Pai e ensinava o «Pai-nosso» aos seus discípulos.
2723. A meditação é uma busca orante que põe em ação o pensamento, a imaginação, a emoção, o desejo. Tem por finalidade a apropriação crente do tema considerado, confrontado com a realidade da nossa vida.
2724. A contemplação é a expressão simples do mistério da oração. É um olhar de fé fixo em Jesus, uma escuta da Palavra de Deus, um amor silencioso. Realiza a união com a oração de Cristo, na medida em que nos faz participar no seu mistério.
O COMBATE DA ORAÇÃO
2725. A oração é um dom da graça e uma resposta decidida da nossa parte. Pressupõe sempre um esforço. Os grandes orantes da Antiga Aliança antes de Cristo, bem como a Mãe de Deus e os santos com Ele no-lo ensinam: a oração é um combate. Contra quem? Contra nós mesmos e contra as astúcias do Tentador que tudo faz para desviar o homem da oração e da união com o seu Deus. Reza-se como se vive, porque se vive como se reza. Se não se quiser agir habitualmente segundo o Espírito de Cristo, também não se pode orar habitualmente em seu nome. O «combate espiritual» da vida nova do cristão é inseparável do combate da oração.
I. As objecções à oração
2726. No combate da oração, temos de enfrentar, em nós e à nossa volta, concepções errôneas da oração. Alguns vêem nela uma simples operação psicológica; outros, um esforço de concentração para chegar ao vazio mental; outros ainda, reduzem-na a atitudes e palavras rituais. No inconsciente de muitos cristãos, rezar é uma ocupação incompatível com tudo o que têm de fazer: não têm tempo. Os que procuram a Deus na oração desanimam depressa, porque não sabem que a oração também vem do Espírito Santo e não somente de si próprios.
2727. Temos de enfrentar também certas mentalidades «deste mundo» que nos invadem, se não estivermos atentos. Por exemplo: só é verdadeiro o que se pode verificar pela razão e pela ciência (mas orar é um mistério que ultrapassa a nossa consciência e o nosso inconsciente); os valores são a produção e o rendimento (mas a oração é improdutiva, logo inútil); o sensualismo e o conforto são os critérios do verdadeiro, do bem e do belo (mas a oração, «amor da beleza» – philocália – deixa-se encantar pela glória do Deus vivo e verdadeiro); em reação ao ativismo, temos a oração apresentada como fuga do mundo (mas a oração cristã não é uma saída da história nem um divórcio da vida).
2728. Finalmente, o nosso combate tem de enfrentar aquilo que sentimos como sendo os nossos fracassos na oração: desânimo na aridez, tristeza por não dar tudo ao Senhor, porque temos «muitos bens» decepção por não sermos atendidos segundo a nossa própria vontade, o nosso orgulho ferido que se endurece perante a nossa indignidade de pecadores, alergia à gratuitidade da oração, etc... A conclusão é sempre a mesma: de que serve orar? Para vencer tais obstáculos, é preciso combater com humildade, confiança e perseverança.
II. A humilde vigilância do coração
PERANTE AS DIFICULDADES DA ORAÇÃO
2729. A dificuldade habitual da nossa oração é a distração. Pode ter por objecto as palavras e o seu sentido, na oração vocal; mais profundamente, pode incidir sobre Aquele a Quem rezamos, na oração vocal (litúrgica ou pessoal), na meditação e na contemplação. Partir à caça das distrações seria cair nas suas ciladas; basta regressar ao nosso coração: uma distração revela-nos aquilo a que estamos apegados e esta humilde tomada de consciência diante do Senhor deve despertar o nosso amor preferencial por Ele, oferecendo-Lhe resolutamente o nosso coração para que Ele o purifique. É aí que se situa o combate: na escolha do Senhor a quem servir (18).
2730. Positivamente, o combate contra o nosso eu, possessivo e dominador, consiste na vigilância, a sobriedade do coração. Quando Jesus insiste na vigilância, esta refere-se sempre a Ele, à sua vinda, no último dia e em cada dia: «hoje». O Esposo chega a meio da noite. A luz que não se deve extinguir é a da fé: «Diz-me o coração: "Procura a sua face"» (Sl 27, 8).
2731. Outra dificuldade, especialmente para os que querem rezar com sinceridade, é a aridez. Faz parte da oração em que o coração está seco, sem gosto pelos pensamentos, lembranças e sentimentos, mesmo espirituais. É o momento da fé pura, que se aguenta fielmente ao lado de Jesus na agonia e no sepulcro. «Se o grão de trigo morrer, dará muito fruto» (Jo 12, 24). Se a aridez for devida à falta de raiz, por a Palavra ter caído em terreno pedregoso, o combate entra no campo da conversão (19).
PERANTE AS TENTAÇÕES NA ORAÇÃO
2732. A tentação mais comum e a mais oculta é a nossa falta de fé. Exprime-se menos por uma incredulidade declarada do que por uma preferência de facto. Quando começamos a orar, mil trabalhos e preocupações, julgados urgentes, apresentam-se-nos como prioritários. É mais uma vez o momento da verdade do coração e do seu amor preferencial. Umas vezes, voltamo-nos para o Senhor como nosso último recurso: mas será que acreditamos mesmo n'Ele? Outras vezes, tomamos o Senhor como aliado, mas conservamos o coração cheio de presunção. Em todos os casos, a nossa falta de fé revela que ainda não temos as disposições de um coração humilde: «Sem Mim, nada podereis fazer» (Jo 15, 5).
2733. Outra tentação, à qual a presunção abre a porta, é a acédia. Os Padres espirituais entendem por ela uma forma de depressão devida ao relaxamento da ascese, à diminuição da vigilância, à negligência do coração. «O espírito está decidido, mas a carne é fraca» (Mt 26, 41). Quanto de mais alto se cai, mais magoado se fica. O desânimo doloroso é o reverso da presunção. Quem é humilde não se admira da sua miséria; ela leva-o a ter mais confiança e a manter-se firme na constância.
III. A confiança filial
2734. A confiança filial é posta à prova – e prova-se a si mesma – na tribulação (20). A principal dificuldade diz respeito à oração de petição, na intercessão por si ou pelos outros. Alguns deixam mesmo de orar porque, segundo pensam, o seu pedido não é atendido. Aqui, duas questões se põem: Por que é que pensamos que o nosso pedido não é atendido? E como é que a nossa oração é atendida, e «eficaz»?
PORQUE NOS LAMENTARMOS POR NÃO SERMOS ATENDIDOS?
2735. Antes de mais, uma constatação deveria surpreender-nos. É que, quando louvamos a Deus ou Lhe damos graças pelos seus benefícios em geral, não nos importamos nada com saber se a nossa oração Lhe é agradável, ao passo que exigimos ver o resultado da nossa petição. Qual é, então, a imagem de Deus que motiva a nossa oração: um meio a utilizar ou o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo?
2736. Será que estamos convencidos de que «não sabemos o que pedir, para rezar como devemos» (Rm 8, 26)? Será que pedimos a Deus «os bens convenientes»? O nosso Pai sabe muito bem do que precisamos, antes que Lho peçamos (21), mas espera o nosso pedido, porque a dignidade dos seus filhos está na sua liberdade. Devemos, pois, orar com o seu Espírito de liberdade para podermos conhecer de verdade qual é o seu desejo (22).
2737. «Não tendes, porque não pedis. Pedis e não recebeis, porque pedis mal, pois o que pedis é para satisfazer as vossas paixões» (Tg 4, 2-3) (23). Se pedirmos com um coração dividido, «adúltero» (24), Deus não pode atender-nos, pois quer o nosso bem, a nossa vida. «Ou pensais que a Escritura diz em vão: "o Espírito que habita em nós ama-nos com ciúme"?» (Tg 4, 5). O nosso Deus é «ciumento» de nós e isso é sinal da verdade do seu amor. Entremos no desejo do seu Espírito e seremos atendidos:
«Não te aflijas, se não recebes logo de Deus o que Lhe pedes: é que Ele quer beneficiar-te ainda mais pela tua perseverança em permanecer com Ele na oração» (25).
Ele quer «que o nosso desejo se exercite na oração dilatando-nos, de modo a termos capacidade para receber o que Ele prepara para nos dar» (26).
COMO É QUE A NOSSA ORAÇÃO SERIA EFICAZ?
2738. A revelação da oração na economia da salvação ensina-nos que a fé se apoia na ação de Deus na história. A confiança filial é suscitada pela sua ação por excelência: a paixão e ressurreição do seu Filho. A oração cristã é cooperação com a sua providência, com o seu desígnio de amor para com os homens.
2739. Em São Paulo, esta confiança é audaciosa (27), apoiando-se na oração do Espírito em nós e no amor fiel do Pai que nos deu o seu Filho Único (28). A transformação do coração que ora é a primeira resposta ao nosso pedido.
2740. A oração de Jesus faz da oração cristã uma petição eficaz. Jesus é o modelo da oração cristã; Ele ora em nós e connosco. Uma vez que o coração do Filho não procura senão o que agrada ao Pai, como poderia o dos filhos adotivos apegar-se mais aos dons que ao Doador?
2741. Jesus também ora por nós, em nosso lugar e em nosso favor. Todos os nossos pedidos foram reunidos, de uma vez por todas, no seu brado sobre a cruz e atendidos pelo Pai na sua ressurreição; e é por isso que Ele não cessa de interceder por nós junto do Pai (29). Se a nossa oração estiver resolutamente unida à de Jesus na confiança e na audácia filial, obteremos tudo o que pedirmos em seu nome e muito mais do que isto ou aquilo: o próprio Espírito Santo que inclui todos os dons.
IV. Perseverar no amor
2742. «Orai sem cessar» (1 Ts 5, 17), «dai sempre graças por tudo a Deus Pai, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo» (Ef 5, 20), «servindo-vos de toda a espécie de orações e preces, orai em todo o tempo no Espírito Santo; e, para isso, vigiai com toda a perseverança e com preces por todos os santos» (Ef 6, 18). «Não nos foi mandado que trabalhemos, velemos e jejuemos constantemente, mas temos a lei de orar sem cessar» (30) Este fervor incansável só pode vir do amor. Contra a nossa lentidão e preguiça, o combate da oração é o do amor humilde, confiante e perseverante. Este amor abre os nossos corações a três evidências de fé, luminosas e vivificantes:
2743. Orar é sempre possível: O tempo do cristão é o de Cristo Ressuscitado, que está «connosco todos os dias» (Mt 28, 20), sejam quais forem as tempestades (31). O nosso tempo está na mão de Deus:
«É possível, mesmo no mercado ou durante um passeio solitário, fazer oração frequente e fervorosa; sentados na vossa loja, a tratar de compras e vendas, até mesmo a cozinhar» (32).
2744. Orar é uma necessidade vital. A demonstração do contrário não é menos convincente: se não nos deixarmos conduzir pelo Espírito Santo, recairemos na escravidão do pecado (33). Ora, como pode o Espírito Santo ser a «nossa vida» se o nosso coração estiver longe d'Ele?
«Nada iguala o valor da oração; ela torna possível o impossível, fácil o difícil. [...] É impossível [...] que o homem que ora caia no pecado» (34). «Quem reza salva-se, de certeza; quem não reza condena-se, de certeza»».
2745. Oração e vida cristã são inseparáveis, porque se trata do mesmo amor e da mesma renúncia que procede do amor; da mesma conformidade filial e amorosa com o desígnio de amor do Pai; da mesma união transformante no Espírito Santo que nos conforma sempre mais com Cristo Jesus; do mesmo amor para com todos os homens, desse amor com que Jesus nos amou. «Tudo o que pedirdes ao Pai em meu nome, Ele vo-lo concederá. O que vos mando é que vos ameis uns aos outros» (Jo 15, 16-17).
«Ora sem cessar, aquele que une a oração às obras e as obras à oração. Só assim é que podemos considerar como realizável o preceito de orar incessantemente» (36).
V. A oração da Hora de Jesus
2746. Ao chegar a sua «Hora», Jesus ora ao Pai (37). A sua oração, a mais longa que nos é transmitida pelo Evangelho, abraça toda a economia da criação e da salvação, bem como a sua morte e ressurreição. A oração da «Hora» de Jesus continua sempre sua, tal como a sua Páscoa, acontecida «uma vez por todas», continua presente na liturgia da sua Igreja.
2747. A tradição cristã chama-lhe, a justo título, a oração «sacerdotal» de Jesus. Ela é, de facto, a oração do nosso Sumo-Sacerdote, inseparável do seu sacrifício, da sua «passagem» (páscoa) deste mundo para o Pai, em que é inteiramente «consagrado» ao Pai (38).
2748. Nesta oração pascal, sacrificial, tudo está «recapitulado» n'Ele (39): Deus e o mundo, o Verbo e a carne, a vida eterna e o tempo, o amor que se entrega e o pecado que o atraiçoa, os discípulos presentes e os que n'Ele hão-de crer pela palavra deles, a humilhação e a glória. É a Oração da Unidade.
2749. Jesus cumpriu perfeitamente a obra do Pai e a sua oração, como o seu sacrifício estende-se até à consumação do tempo. A oração da «Hora» preenche os últimos tempos e leva-os à sua consumação. Jesus, o Filho a Quem o Pai tudo deu, entrega-Se todo ao Pai; e, ao mesmo tempo, exprime-Se com uma liberdade soberana (40), segundo o poder que o Pai Lhe deu sobre toda a carne. O Filho, que Se fez Servo, é o Senhor, o Pantocrátor. O nosso Sumo-Sacerdote que ora por nós é também Aquele que em nós ora e o Deus que nos atende.
2750. É entrando no santo nome do Senhor Jesus que podemos acolher, desde dentro, a oração que Ele nos ensina: «Pai nosso!». A sua oração sacerdotal inspira, a partir de dentro, as grandes petições do Pai-nosso: a preocupação com o nome do Pai  (41), a paixão pelo seu Reino (a glória) (42), o cumprimento da vontade do Pai, do seu desígnio de salvação (43) e a libertação do mal (44).
2751. Finalmente, é nesta oração que Jesus nos revela e nos dá o «conhecimento» indissociável do Pai e do Filho (45), que é o próprio mistério da vida de oração.
Resumindo:
2752. A oração pressupõe esforço e luta contra nós mesmos e contra as ciladas do Tentador. O combate da oração é inseparável do «combate espiritual» necessário para agir habitualmente segundo o Espírito de Cristo: ora-se como se vive, porque se vive como se ora.
2753. No combate da oração, devemos enfrentar concepções errôneas, diversas correntes de mentalidades e a experiência dos nossos fracassos. A estas tentações, que lançam a dúvida sobre a utilidade ou até mesmo a possibilidade da oração, convém responder com humildade, confiança e perseverança.
2754. As principais dificuldades no exercício da oração são a distração e a aridez. O remédio está na fé, na conversão e na vigilância do coração.
2755. Duas tentações frequentes ameaçam a oração: a falta de fé e a acédia, que é uma espécie de depressão devida ao relaxamento da ascese e que leva ao desânimo.
2756A confiança filial é posta à prova quando temos a sensação de nem sempre ser atendidos. O Evangelho convida-nos a interrogar mo-nos sobre a conformidade da nossa oração com o desejo do Espírito.
2757. «Orai sem cessar» (1 Ts 5, 17). Orar é sempre possível. É, até, uma necessidade vital. Oração e vida cristã são inseparáveis.
2758. A oração da «Hora» de Jesus, justamente chamada «oração sacerdotal» (46), recapitula toda a economia da criação e da salvação. É ela que inspira as grandes petições do «Pai-nosso».

Fonte de pesquisa: Catecismo da Igreja Católica.